No século XIV, quem morava no que hoje é conhecido
como Brasil, jamais sonharia que um dia seria obrigado a usar calças, ou ter
que lidar com baratas, ratos, pardais, pombas, gripes e outras coisas trazidas
pelos nossos futuros colonizadores.
Enquanto isso, lá na Europa, os portugueses, se
preparavam para dominar os mares e serem protagonistas de histórias incríveis
que foram o berço de grande parte do anedotário brasileiro.
Veja essa história de amor: lá por volta de 1340, o sucessor
da Coroa Portuguesa, D. Pedro I (não era o nosso, filho de D. João VI), filho
do Rei Afonso IV se enrabichou com a dama de companhia de sua esposa. O nome da
gaja era Inês de Castro.
O papai e a mamãe do futuro soberano lusitano não aprovaram
o namorico do filho e mandaram a coitadinha da Inês para longe da corte, confinando-a
em um castelo perto da Espanha.
E para aumentar o drama, a esposa de Pedro, Constança,
morreu em 1345. O príncipe, louco de saudades de seu rabo de saia, desobedeceu
o rei-papai e mandou buscar Inês de Castro. Os pombinhos ficaram juntos por uns
10 anos e tiveram quatro filhos.
A década de lua de mel não sensibilizou os monarcas e
o rei-papai mandou três de seus conselheiros matarem a pobrezinha da Inês e
seus rebentos (netos do rei, conseqüentemente). QUE MALDADE!
D. Pedro, em sua incontrolável fúria, fez um pouco de
birra, mas no final obedeceu à mamãe e não criou encrenca. E assim se passaram
mais dois anos, quando Afonso IV morreu. A partir daquele momento, o príncipe
havia se tornado o rei de Portugal.
Um de seus primeiros atos foi mandar matar os
assassinos de sua amada (um deles conseguiu fugir). Logo depois, desenterrou o
corpo decomposto de Inês e a posicionou no trono, obrigando toda a corte
lusitana a beijar a mão da Rainha.
Pedro finalmente havia feito justiça (na ótica dele),
mas isto não adiantava para trazer Inês de volta a vida.
Daí vem a expressão “agora a Inês é morta”, como
referência à solução de uma situação, cujo desenlace já ocorreu e, portanto, de
nada mais serve – por melhores que sejam as intenções.
Essa história
se encaixa feito uma luva como analogia das recentes tentativas de o governo
federal reverter a desaceleração da atividade econômica brasileira.
Sim, é verdade que a redução de IPI fez o preço de uma
geladeira cair, em média, R$ 92,00 e o valor de um fogão ser reduzido em R$ 21,00.
Na mesma linha, quem vai financiar um carro de R$ 25 mil, economiza cerca de R$
125,00 pela diminuição do IOF.
Esses valores em si, não são lá muito entusiasmantes,
mas podem fazer alguma diferença na hora das compras de Natal.
O problema é que o problema não é esse!
Em palavras simples, a dificuldade de grande parte dos
consumidores não está – agora – no preço final dos produtos que ele deseja
comprar, mas sim no seu enorme comprometimento financeiro com as dívidas do passado.
Vejamos alguns dados do Banco Central:
·
Desde
dezembro de 2010 a inadimplência não pára de subir no Brasil;
·
Inicialmente
os dados comparativos eram bastante tímidos e nada alarmantes. Em abril de
2011, a quebra de adimplência era restrita a R$ 58 bi e crescia apenas 1,9% em comparação
a abril do ano anterior;
·
No
entanto, ao chegar em outubro, a inadimplência alcançou R$ 70,4 bi, o que
equivale a uma assustadora expansão de 26% diante do mesmo mês de 2010;
·
O
maior problema está nos 6,87% dos empréstimos para pessoas físicas com até 90
dias de atraso em outubro último. Exatamente um ano antes esse percentual estava
em 5,48%;
·
Mas
o pior mesmo são os papagaios pendurados em mais de 90 dias de atraso. Esses
chegaram a 7,13% (em outubro passado) do volume de crédito, frente a 5,95% em outubro de 2010.
Tais informações deixam por demais evidente que sendo
a intenção do governo a retomada do consumo de maneira consistente, mais
importante do que baratear eletrodomésticos é oferecer modalidades de renegociação
das dívidas das pessoas físicas por demais pressionadas pelos maiores juros do
mundo.
De pouco ou nada adianta incentivar o consumo, ou até
o crédito novo, se existe um estoque enorme e crescente de dívidas fora do
prazo do pagamento.
Isso lembra a citada história da realeza de Portugal.
A mistura de juros exagerados e incentivo oficial ao endividamento acabou por
detonar os fundamentos econômicos de centenas de milhares de famílias de
consumidores. Baixar impostos para reduzir preços nessa altura do jogo é quase
como solucionar um problema cujas conseqüências já explodiram.
É tarde demais.
Só quem não está com a corda no pescoço é que vai aproveitar o pacote do Dr.
Mantega. O efeito positivo, então, não será muito grande.
Poderemos conferir isso nas próximas semanas, a partir
dos dados a serem divulgados das vendas de Natal em comparação às festas de
final de ano dos anos passados.
Ou seja, “agora, a Inês é morta”!
Até Breve,
Eduardo Starosta
ESTA REDUÇÃO DO IPI PROMOVIDA PELO GOVERNO É UM ATO DE GENEROSIDADE, POIS, PELA RENUNCIA FISCAL PREVISTA DE APROXIMADAMENTE R$2,7 BILHÕES, O GOVERNO FICARÁ ALGO, EM TORNO, DE 16 HORAS SEM ARRECADAR NADA, SEGUNDO O IMPOSTÔMETRO. SERÁ QUE NÃO VAI FAZER FALTA ?
ResponderExcluir16 HORAS SEM ARRECADAR NADA DE ACORDO COM O IMPOSTÔMETRO?? É, acho que o pessoal da Receita Federal periga sofrer delírios por crise de abstinência...
ResponderExcluir