sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A História da “Inês é Morta” e o Pacote do Governo




No século XIV, quem morava no que hoje é conhecido como Brasil, jamais sonharia que um dia seria obrigado a usar calças, ou ter que lidar com baratas, ratos, pardais, pombas, gripes e outras coisas trazidas pelos nossos futuros colonizadores.

Enquanto isso, lá na Europa, os portugueses, se preparavam para dominar os mares e serem protagonistas de histórias incríveis que foram o berço de grande parte do anedotário brasileiro.

Veja essa história de amor: lá por volta de 1340, o sucessor da Coroa Portuguesa, D. Pedro I (não era o nosso, filho de D. João VI), filho do Rei Afonso IV se enrabichou com a dama de companhia de sua esposa. O nome da gaja era Inês de Castro.

O papai e a mamãe do futuro soberano lusitano não aprovaram o namorico do filho e mandaram a coitadinha da Inês para longe da corte, confinando-a em um castelo perto da Espanha.

E para aumentar o drama, a esposa de Pedro, Constança, morreu em 1345. O príncipe, louco de saudades de seu rabo de saia, desobedeceu o rei-papai e mandou buscar Inês de Castro. Os pombinhos ficaram juntos por uns 10 anos e tiveram quatro filhos.

A década de lua de mel não sensibilizou os monarcas e o rei-papai mandou três de seus conselheiros matarem a pobrezinha da Inês e seus rebentos (netos do rei, conseqüentemente). QUE MALDADE!

D. Pedro, em sua incontrolável fúria, fez um pouco de birra, mas no final obedeceu à mamãe e não criou encrenca. E assim se passaram mais dois anos, quando Afonso IV morreu. A partir daquele momento, o príncipe havia se tornado o rei de Portugal.

Um de seus primeiros atos foi mandar matar os assassinos de sua amada (um deles conseguiu fugir). Logo depois, desenterrou o corpo decomposto de Inês e a posicionou no trono, obrigando toda a corte lusitana a beijar a mão da Rainha.

Pedro finalmente havia feito justiça (na ótica dele), mas isto não adiantava para trazer Inês de volta a vida.

Daí vem a expressão “agora a Inês é morta”, como referência à solução de uma situação, cujo desenlace já ocorreu e, portanto, de nada mais serve – por melhores que sejam as intenções.

Essa história se encaixa feito uma luva como analogia das recentes tentativas de o governo federal reverter a desaceleração da atividade econômica brasileira.

Sim, é verdade que a redução de IPI fez o preço de uma geladeira cair, em média, R$ 92,00 e o valor de um fogão ser reduzido em R$ 21,00. Na mesma linha, quem vai financiar um carro de R$ 25 mil, economiza cerca de R$ 125,00 pela diminuição do IOF.

Esses valores em si, não são lá muito entusiasmantes, mas podem fazer alguma diferença na hora das compras de Natal.

O problema é que o problema não é esse!

Em palavras simples, a dificuldade de grande parte dos consumidores não está – agora – no preço final dos produtos que ele deseja comprar, mas sim no seu enorme comprometimento financeiro com as dívidas do passado. Vejamos alguns dados do Banco Central:

·         Desde dezembro de 2010 a inadimplência não pára de subir no Brasil;

·         Inicialmente os dados comparativos eram bastante tímidos e nada alarmantes. Em abril de 2011, a quebra de adimplência era restrita a R$ 58 bi e crescia apenas 1,9% em comparação a abril do ano anterior;

·         No entanto, ao chegar em outubro, a inadimplência alcançou R$ 70,4 bi, o que equivale a uma assustadora expansão de 26% diante do mesmo mês de 2010;

·         O maior problema está nos 6,87% dos empréstimos para pessoas físicas com até 90 dias de atraso em outubro último. Exatamente um ano antes esse percentual estava em 5,48%;

·         Mas o pior mesmo são os papagaios pendurados em mais de 90 dias de atraso. Esses chegaram a 7,13% (em outubro passado) do volume de crédito, frente a  5,95% em outubro de 2010.

Tais informações deixam por demais evidente que sendo a intenção do governo a retomada do consumo de maneira consistente, mais importante do que baratear eletrodomésticos é oferecer modalidades de renegociação das dívidas das pessoas físicas por demais pressionadas pelos maiores juros do mundo.

De pouco ou nada adianta incentivar o consumo, ou até o crédito novo, se existe um estoque enorme e crescente de dívidas fora do prazo do pagamento.

Isso lembra a citada história da realeza de Portugal. A mistura de juros exagerados e incentivo oficial ao endividamento acabou por detonar os fundamentos econômicos de centenas de milhares de famílias de consumidores. Baixar impostos para reduzir preços nessa altura do jogo é quase como solucionar um problema cujas conseqüências já explodiram. 

É tarde demais. Só quem não está com a corda no pescoço é que vai aproveitar o pacote do Dr. Mantega. O efeito positivo, então, não será muito grande.

Poderemos conferir isso nas próximas semanas, a partir dos dados a serem divulgados das vendas de Natal em comparação às festas de final de ano dos anos passados.

Ou seja, “agora, a Inês é morta”!

É melhor que as autoridades econômicas comecem a pensar seriamente em medidas mais impactantes para fazer com que o Brasil escape de uma recessão no ano que vem.
Até Breve,

Eduardo Starosta

2 comentários:

  1. ESTA REDUÇÃO DO IPI PROMOVIDA PELO GOVERNO É UM ATO DE GENEROSIDADE, POIS, PELA RENUNCIA FISCAL PREVISTA DE APROXIMADAMENTE R$2,7 BILHÕES, O GOVERNO FICARÁ ALGO, EM TORNO, DE 16 HORAS SEM ARRECADAR NADA, SEGUNDO O IMPOSTÔMETRO. SERÁ QUE NÃO VAI FAZER FALTA ?

    ResponderExcluir
  2. 16 HORAS SEM ARRECADAR NADA DE ACORDO COM O IMPOSTÔMETRO?? É, acho que o pessoal da Receita Federal periga sofrer delírios por crise de abstinência...

    ResponderExcluir